Follow by Email

sábado, 11 de junho de 2011

Da Paz interior



Da Paz interior

Tem algum tempo que buscava um caminho novo para tratar das “coisas da vida”...
Sempre me interessei pelo Budismo, pois o conheci pequeno ainda, junto à colônia Japonesa, na Curitiba dos anos 70....
Ouvi pela primeira vez o “Namu Myoho Rengue Kyo “ numa casa nas imediações da Base Aérea de Curitiba... Lá se concentrava boa parte da Colônia Japonesa da cidade...
É... Curitiba tinha Colônias na época...
Interessei-me pelo pessoal Zen, mas nunca fui muito mais que umas poucas leituras... Veio a adolescência, o Colégio Militar, a mochila, o Marumbi , os acampamentos e as escaladas falaram mais alto...
Num determinado sábado da minha vida, longe de onde gostaria de estar, longe de quem com que eu gostaria de estar,  lembrei de que “o desejo trazia o sofrimento”... Voltei a estudar o Budismo...
Obviamente que ao me deparar com o Budismo devocional reagi negativamente..
Sou por mais Cartesiano para aceitar que a devoção me levará a algo mais que uma bela enrascada patrocinada por um cara de batina ou “vestes estranhas”...
O Buda que me lembrava era “ateu”... O ateísmo Búdico sempre me atraiu, não por Buda ter negado a existência de Deus, mas por Buda não ter se preocupado com a existência ou não...
Mergulhei em alguns livros que listarei abaixo, mas encontrei algo muito racional num livro de título jocoso... Aliás, uma das características dos budistas é o bom humor...
O livro não apresenta o budismo sob o viés devocional, mas sim sob o viés psicológico. Recomendo a leitura de ponta a ponta, e reconheço que dei de presente a um amigo que estava em estado de “inferno”..
É baratinho, pesquisa na net, vais gostar...
Como Virar Buda em Cinco Semanas - O Caminho Mais Curto para a Serenidade
Giacobbe, Giulio Cesare
Segue uma breve explanação sobre o Budismo, que adotei como filosofia de vida por alguns motivos, a saber:
1.       Deus não está na conta.... Nem o Diabo...
2.       Define o problema “sofrimento”, seja ele de qual motivo for!
3.       Apresenta uma solução, não devocional!
4.       Não te cobra dízimo!
5.       Não te exorciza de demônios inexistentes! Aliás, te mostra que o único demônio é você mesmo!
6.       Não te obriga a seguir ninguém para “chegar lá”! Aliás, diz que tens de chegar por ti mesmo.
7.       Coloca a responsabilidade de teus atos em tuas mãos, não na  “maldita da cachaça” ou “no demônio que colocou a arma na tua mão”!

O Ateísmo Búdico.

Buda não nega, nem defende a existência de um Deus.
Buda era um cara pragmático, tinha um problema e queria resolvê-lo.... Resolveu, e decidiu ensinar os demais.
Para entender este ateísmo Búdico, há uma história muito interessante:
Imagine uma pessoa que tenha sido ferida por uma flecha, ela precisa de cuidados imediatos.
Mas imagine que antes de deixar o médico tocar na ferida ele queira saber quem atirou a flecha, de que madeira era o arco, qual era a ponta da flecha, qual era o estilo do arqueiro, e por aí adiante.
O infeliz morreria em meios a discursos acadêmicos.
Buda falou (ou aceitemos que isto foi falado pelo Buda histórico)
“Eu ensino unicamente aquilo que serve para atingir o Caminho. Não ensino aquilo que é inútil. Para além do fato de o universo ser finito ou infinito, temporário ou eterno, há uma verdade que deve ser aceita: A realidade do sofrimento. O Sofrimento provém de causas que podem ser compreendidas e eliminadas. O que ensino é útil à obtenção do distanciamento, da equanimidade, da paz e da libertação. Porém, não falo daquilo que não é útil para alcançar o caminho. " 
Esta explicação aparece em várias Suttas (sermões)

O Cara

Antes de tudo, Buda não é uma pessoa, e sim um estado, ao qual poderás chegar, se assim o quiseres.  Basta seguir o Nobre Caminho Óctuplo.
Aqui temos de tomar muito cuidado, o primeiro Buda  foi um homem, historicamente existiu. Nasce como Sidarta Gualtama posteriormente conhecido por Shakyamuni ("sábio dos Shakyas")
Mas os escritos sobre sua vida têm muita mistificação. De seu nascimento fala-se que a mãe recebeu a visita em sonho de um Elefante de seis presas (Existe um "arcanjo Gabriel"  para cada cultura).
Este a golpeou e após 10 meses ele nasceu, gestação de Elefante, obviamente....
A mãe morre oito dias depois do parto e sua ama de leite será sua tia.
Seu pai (o humano, não o paquiderme- o rei Suddhodana, líder do clã Shakya,) descobre cedo que ele é um predestinado a mudar o mundo, e o encerra então em seu palácio para que ele não abandonasse o reino.  O faz casar com sua prima, e com ela Sidarta tem um filho.
A angustia de Sidarta se inicia um dia que tem contato com a pobreza, com a doença, a velhice e a morte.
Esta angústia era tão grande que ele abandona o palácio (forma educada para dizer que abandona mulher e filho) e sai para buscar a solução.
Viverá como asceta e descobrirá que não é a solução, a meditação lhe trás a paz, mas esta só existe durante a meditação. Mas num dado momento Sidarta se ilumina.


A Iluminação:


Sidarta chega aos seguintes entendimentos:
  • ·         Nada é permanente, tudo está em constante mutação, Sidarta foi o primeiro Existencialista da história.
  • ·         Tudo está interligado.


Da Impermanência:

Se nada é permanente, nem eu sou, não existe um “EU”, um “Ego”. Não ao menos imutável.
Se houvesse a permanência, um grão de arroz não se transformaria num planta, ou uma criança em um adulto.
A impermanência é o que mais me seduziu quando das minhas leituras dos existencialistas, e a encontrei no Budismo.
Se um homem toma banho duas vezes num rio, na segunda não será mais o mesmo homem, nem o rio mais o mesmo rio.
Não sou mais o mesmo homem que era antes de Nathália nascer, ou depois de minhas vitórias e minhas derrotas. 
Não mais o mesmo homem desde que conheci Eliane, nem ela mais a mesma mulher. Mudamos!
Portanto se não existe um “Eu” permanente,  estou me iludindo ao me apegar a este “Eu”, e a ilusão trará o sofrimento. Se me apegar àquela imagem inicial de minha amada, estarei me encaminhando para o sofrimento, pois ela mudará. 
O desapego do “Eu”, que tantos não aceitam, na verdade é aceito com outras palavras pelas mesmas pessoas, senão vejamos:
Amar é deixar livre.
É uma frase comum, que já foi cantada “em prosa e verso”... eu conheço até uma música da Suzy Quatro com este nome.
Podemos entender esta frase como um desapego. O desapego não nega o amor, não preciso deixar de amar minha esposa por conta do desapego. O desapego chega até ser uma questão de respeito por ela, de aceitar a sua mutação, de não impedir a sua evolução.
Creio que não é que não exista um EU, mas sim há um EU mutável.
Neste momento alguém gritaria: TOCA RAULLLLLL!!!
Segundo reza a lenda, Raul era leitor de Schopenhauer, que foi um dos primeiros “tradutores” do Budismo para o ocidente.

Da interligação:

Sidarta, agora já um Buda (ou em estado de Buda), vê na folha de uma árvore todo o Universo.
A folha só existe pois houveram as explosões de supernovas, que espalharam os compostos pesados amalgamados nos corações das estrelas...  Sidarta talvez tenha sido o primeiro astrofísico... J.
Carl Sagan nos deixou uma frase muito linda a este respeito:
Você é feito de poeira das estrelas.
No livro de Giulio Giacobbe ele cita (sempre jocosamente) :  
“Quantas vezes você já ouviu que é importante para o Universo??”
Pois, se você não existisse, não haveria ESTE Universo... seria um outro. Você faz parte deste Universo. Você existe, pois existiram seus Pais.
Os cavalos existem, pois houve uma evolução e milhares de outros seres (impermanentes, viu) que deram origem aos cavalos.
Um dos símbolos do Budismo é a Flor de Lotus, pois dizem que ela carrega a causa (a semente) e o efeito (a flor) ao mesmo tempo... Botânica não é o meu forte, e nunca ví uma flor de Lótus pessoalmente, mas creio que o simbolismo esteja explicado.

A Impermanência leva a uma conclusão temporal:
O passado já não existe, o futuro ainda não existe o que resta é o presente!
Você verá que um dos oito preceitos é a compreensão da Realidade, e esta é aquilo que te cerca neste momento.
Para mim, sentado à mesa da copa de minha mãe, a realidade é este computador, a música que estou ouvindo e a cuia fumegante de chimarrão.
Nem Nova York, nem Joinville, são reais para mim.
A Realidade é aqui e agora. Uma das coisas que se faz na meditação é a absorção da Realidade.
A atenção aos atos.
Em uma das sutras, Sakyamuni fala do ato de comer uma tangerina conscientemente.  Isto significa aproveitar sua doçura, sua fragrância, sua textura. 
A sua Realidade é neste momento a tangerina, se você não prestar atenção nela, e sim ficar pensando no enriquecimento do Palocci, você não curtiu o presente.
Você pode tentar fazer isto com uma taça de vinho....
A atenção aos atos é importante por outro conceito, o Carma (Karma se preferires).
Carma significa ação, tão pura e simplesmente. São as ações que fazemos agora que determina nosso futuro.
Numa frase:
“Se queres saber o motivo do que estás vivendo agora, olha teu passado, se queres saber a forma que vais viver no futuro, olha teu presente. “
A atenção à realidade e aos atos determinará o carma em questão.
Eu estou vivendo hoje entre Rio e Curitiba por conta de decisões que tomei no passado recente. E fui eu que tomei a decisão, não foi o diabo que me colocou em rota de choque com o chefe, nem o chefe que criou a situação.




As Quatro Nobres Verdades

1.       A Existência do Sofrimento.
a.        Sofrimento existe e é criado por nós.
2.       A causa do sofrimento
a.       A ignorância da impermanência.
b.      O apego a coisas impermanentes achando que são permanentes
3.       A extinção do sofrimento
a.       É possível extinguir o sofrimento e chegar ao estado de Buda.
b.      Só você pode fazê-lo, por teus esforços.
4.       O caminho para a extinção do sofrimento.
a.       Seguir o Nobre Caminho Octuplo

O Sofrimento é sistemático e contínuo, entende-se ser um sofrimento neurótico (importante ver a diferença de neurose para psicose, pois vou te chamar de maluco daqui a pouco).
Desde que o ser humano deu início à evolução psíquica, ou seja, a pensar,  ele transformou o pensamento em sua principal atividade perceptiva.
O seu “Eu”, ou imagem que tem de si, superou o seu corpo e se projeta nas suas posses, possibilidades, vínculos afetivos (outros seres), papeis sociais.
De acordo com a psicologia Budista, esta é a raiz da neurose, portanto do sofrimento.
É uma neurose, pois constitui um processo de afastamento da Realidade, ou seja, da coincidência natural do “Eu” com o corpo. Você passou a ser seus pensamentos.
O controle deles e a atenção à Realidade, que é onde você está, é um dos oito preceitos do Nobre Caminho Óctuplo.
O sofrimento se deve a um aumento do estado de vulnerabilidade do Eu, e aumenta com a ampliação do número de objetos dos quais se identifica.
O que nos torna neuróticos não é a vida frenética, mas sim a postura mental perante ela. “A felicidade depende do sucesso”. Isto provoca o stress, o exato contrário da serenidade. E atrapalha o sucesso.
A felicidade vem exatamente da serenidade. O Estado de Buda (ou budeidade) nos possibilita alcançar a serenidade, sem necessariamente renunciar ao sucesso
O Estado de Budeidade é simplesmente o estado natural de não neurose. Estranhamente achamos que este estado neurótico é o normal. Na realidade somos todos anormais
Buda colocou que o estado de Budeidade é possível de se alcançar por todos, justo por não ser um estado sobre-humano, mas simplesmente um estado natural.
Como obter a extinção do sofrimento?  Seguir o Nobre caminho Óctuplo.

O Nobre Caminho Óctuplo:

Ele na realidade pode ser reduzido a cinco preceitos, mas vamos aos oito:

Conhecimento Reto:

Consciência da impermanência, da mutabilidade e da interdependência das coisas.
E em consequência, o desapego.
A Iluminação de Sakyamuni.

Pensamento Reto

Eliminação do pensamento negativo involuntário e a produção do pensamento positivo voluntário.
Note que aqui entra empatia, o Amor Universal.
Encontrei no Zen um tipo de meditação que se chama “Tonglen”, que busca justamente o desenvolvimento da empatia.
Tenho praticado ela para com as pessoas que “me incomodam”. Passo a não mais me incomodar, e a não mais sofrer com aquilo.

Palavra Reta

Preceito moral, ligado aos cinco preceitos básicos :
1.       Não matar;
2.       Não roubar;
3.       Não cometer violência;
4.       Falar de acordo com a verdade;
5.       Abster-se de usar substâncias que obscureçam a mente.

Ação Reta

Preceito moral, ligado aos cinco preceitos acima.

Meios retos de subsistência.

Preceito moral, ligado aos cinco preceitos acima.
Vale um comentário aqui: Todos tem o Buda dentro de si, mesmo aquele mais terrível facínora.
Mas dedicar-se a uma profissão que produz sofrimento aos outros sempre trará sofrimento pois ela acaba gerando um sentimento  de culpa.
Aqui novamente o pragmatismo de Buda, eliminar a culpa elimina o sofrimento.
 Obviamente este sentimento de culpa depende do ambiente que o indivíduo viva, mas Sakyamuni adotou as regras morais que são de modo geral pertencentes a todas as culturas humanas.

Esforço Reto

Vontade (ou força de vontade)  para a Concentração Reta

Presença Mental Reta

Atenção à realidade e a interação com ela.

Concentração Reta

Observação desprendida da mente.
É a libertação dos pensamentos involuntários.
É o objetivo final, é atingir o estado de Budeidade.

Provavelmente voltarei a escrever sobre isto, mas creio que não devas esperar. Compra o livrinho e leia.

Links:

Alguns links que estão nos meus favoritos:

Livros

Como virar Buda em cinco semanas 
Giulio Cesare Giacobbe - 144 páginas
Buda: o Mito e a Realidade 
Herodoto Barbeiro - 120 páginas - Madras 
Bruno Pacheco - 167 páginas
A Ética Budista e o Espírito Econômico do Japão 
Ricardo Mário Gonçalves - 165 páginas - Elevação 
O Budismo 
Bernard Faure - 137 páginas - Instituto Piaget 
O Arqueiro Zen e a Arte de Viver 
Kenneth Kushner - 71 páginas - Pensamento 

3 comentários:

Mirian Martin disse...

Aqui em casa tem uma coleção sobre Buda, na verdade tudo em mangá, de Osamu Tesuka. André, que é curioso, leu. Arthur, que adora mangás, devorou. Eu, que nem estou aí para as coisas, nem cheguei perto. :)) Só agora, quando li seu post. São 14 volumes!!!
Bom, não tem como discordar dos conceitos budistas, porque no fundo, toda relegião, em sua base, tem esses mesmos conceitos. A diferença é que no budismo se vive a base e nas religiões cultua-se o periférico - o que é uma grande diferença e é uma das minhas brigas dentro da minha igreja (imagina como sou querida lá dentro...). Por exemplo, no dito cristianismo vive-se o paulinismo! O real cristianismo é irmão gêmeo do budismo, com pequenas diferenças, afinal cada gêmeo tem sua própria personalidade. :) O paulinismo criou a superficilidade que cultua-se nas igrejas.
Gostei! Estou linkando o seu blog no meu. ;)

Schooner disse...

Sem dúvida o que há hoje é um Paulinismo... A grande diferença entre Budismo e Cristianismo é que Cristo ( ou Paulo) disse (ou disseram que ele disse) que se atingia ao Pai(a Verdade) somente através dele...
Buda disse que você chega à Verdade por si só, sem nenhum intermediário.
Mas os conceitos Morais são a-religiosos e atemporais.
Pediram ao Rabi Hilel para explicar a Torá, e ele disse que o faria apoiado apenas em uma perna...
Fica então como uma garça e declama:
"Não faças ao outro o que não queres que façam a si mesmo", e completou " o resto são comentários".
Hilel seguiu a sansara no séc I D.C.
No pensamento oriental há uma variante:
Faça ao outro o que gostaria de que fizessem a ti mesmo... é sutil, mas...
Osamu Tesuka é fantástico, quero comprar a coleção.... mas ainda não tive a coragem de desembolsar a grana... :-)

Blog da Naná disse...

Olha eu realmente nunca fui em uma busca tão profunda sobre a vida, o Eu e a existência de tudo. Simplesmente adorei este post e obviamente comprarei o como virar buda em cinco semanas!