terça-feira, 1 de maio de 2012

Retratação!


Venho através desta me retratar....
Há cerca de três meses fui convidado para escrever no Blog da minha Amiga Sandra Portugal, oportunidade que sinceramente me envaideceu.... Longo será meu caminho no Dharma.. :-)
Creio que a Naná chegou a pedir para transcrevê-lo aqui, mas a escolha foi deixá-lo lá e citá-lo aqui, pois assim quem ler aqui, poderá se deliciar por lá com as entrevistas, posts e o bom astral da página!
Tá aí... vá lá... E corra pelo Blog todo também!


Não é exatamente uma retratação, mas o exercício "da metamorfose ambulante", a constatação da "Eterna Impermanência", em especial a das certezas e verdades.
Em minha exposição da importância da Empatia, escrevi:

É  a empatia que nos faz humanos melhores, na verdade, creio ser a empatia a capacidade que nos torna humanos.

A Empatia continua nos fazendo cada vez melhores, mas não nos difere dos animais, não nos torna humanos pois já é uma característica animal.
Nesta semana, vi a palestra no TED de Frans de Waal "Moral behavior in animals" que me chamou a atenção para a incoerência da frase. 


Na verdade, isto estava na cara, sempre vi, e vivi com os animais que dividiram em algum momento a sua existência com a minha.
Mas meu comportamento antropocêntrico (longo será meu caminho no Dharma :-) ) mascarou isto.
Terei de buscar algo mais que nos diferencie dos animais... Mas pelo momento anda difícil...
Não por conta da humanidade, mas pela total igualdade que reconheço neles.
No “No Nobre Caminho Óctuplo” Sakyamuni nos lembra do Amor a todos os seres senciêntes.
Se você já tá de .... cheio deste meu papo budista, fica com a frase do maior ícone do Ocidente Humanista e Laico.

"Haverá um dia em que um crime contra um animal; será um crime contra toda humanidade."
Leonardo Da Vinci

sábado, 14 de abril de 2012

Sutra das Oito Percepções dos Grandes Seres

Estou lendo o excelente livro "Budismo Puro e Simples" do Venerável Mestre Hsing Yün
Essencialmente é um comentário sobre a Sutra das Oito Percepções dos Grandes Seres.
Na verdade, é a explicação de uma forma simples de tudo que li sobre o caminho do explicado pelo Honrado entre os Homens.
Recomendo a compra do livrinho... sebos e estante virtual são boas opções.


Que a Paz nos acompanhe a cada momento...
Pois se onde não há Pão, não há Torá...
Onde não há Paz, não há vida e evolução!
Bom Sábado!!






Sutra das Oito Percepções dos Grandes Seres

A todos os discípulos do Buda:

Dia e noite, reflitam sobre estas
Oito Percepções dos Grandes Seres
e recitem-nas com freqüência.

Um

Percebam que este mundo é Impermanente, que as nações não estão a salvo nem em segurança, que os Quatro Elementos causam sofrimento e são Vazios, que não existe individualidade nos Cinco Agregados da Existência (Skandhas); que todas as coisas que surgem devem mudar e desaparecer, pois não são nada mais que falsa aparência sem qualquer essência duradoura; que a Mente é a fonte do mal e que a Forma resulta das ações maléficas. Contemplem isto tudo, e gradualmente se libertarão do ciclo de nascimento e morte.

Dois

Percebam que o desejo excessivo causa sofrimento. A fadiga e os problemas do ciclo de nascimento e morte advêm da ganância e do desejo. Nutram poucos desejos, sejam receptivos e serão felizes em seu corpo e mente.

Três

Percebam que a Mente é insaciável e que constantemente luta por mais, agravando, assim, suas próprias transgressões e erros. A mente do Bodhisattva, por sua vez, está constantemente satisfeita com o que tem, é imperturbável na pobreza e sustém o Dharma. Sabedoria é seu único interesse.

Quatro

Percebam que a indolência leva à ruína. Sejam diligentes, rompam as amarras da nociva obsessão. Derrotem os quatro demônios e escapem da prisão das trevas deste mundo.

Cinco

Percebam que a ignorância origina o ciclo de nascimento e morte. O Bodhisattva estuda com afinco, ouve com todo o cuidado e reflete com freqüência almejando desenvolver sua sabedoria e aperfeiçoar a oratória, preparando-se, dessa forma, para ensinar e transformar os outros, expondo-lhes o maior dos júbilos.

Seis

Percebam que se ressentir da pobreza e do sofrimento só os faz aumentar. Um Bhodisattva é generoso e equânime frente ao amigo e ao inimigo. Ele não se atém aos erros do passado e tampouco cria novos inimigos.

Sete

Percebam que os cincos desejos acarretam apenas infortúnios. Embora vivamos neste mundo, não nos maculamos pelos prazeres terrenos. Ao contrário, refletimos sempre sobre a vestimenta do monge, sua tigela e seus instrumentos de Dharma. Com a mente enfocada na vida monástica, atemo-nos ao caminho e purificamo-nos. Nossa integridade tudo abarca, nossa compaixão todos envolve.

Oito

Percebam que vida e morte são como chamas tremulantes e que o sofrimento é infindável. Façam os Votos do Mahayana para favorecer todas as criaturas. Jurem assumir o infinito sofrimento dos seres sencientes e levá-los, todos, à derradeira bem-aventurança.

Esses oito pontos são a percepção de todos os Budas e Bodhisattvas. Com determinação eles trilham o caminho e com compaixão aguçam sua sabedoria. Tripulam o navio do Corpo do Dharma e navegam para as margens do Nirvana. Então, retornam ao ciclo do nascimento e morte para ajudar os seres a chegarem àquela margem. Esses oito pontos podem nos guiar em tudo e mostrar a todos os seres sencientes como compreender os sofrimentos do nascimento e da morte; como nos livrar dos cinco desejos e dirigir nossa mente para o caminho sagrado. Recitando esses oito pontos, o discípulo do Buda erradicará seus infindáveis débitos cármicos, pensamento a pensamento, e chegará ao estado desperto, tornando-se rapidamente iluminado; assim, estará para sempre liberto do ciclo de nascimento e morte, permanecendo em júbilo eternamente.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Das histórias contadas na hora da cerveja

Dia dos Pais antecipado... vou descer para CWB amanhã.. e por conta das necessidades hospitalares da família, só retorno na terça...
Antecipamos o domingo, e fomos a uma cervejaria no Shopping... O ambiente é barulhento, mas a cerveja é boa...
Gostamos da Red Ale que eles servem... Cervejaria artesanal.. verdadeiramente artesanal... Nunca vem com o mesmo sabor, apesar de sempre ser saborosa...
Impermanente, como diria Sakyamuni...
Papai lembrou que na  Cruz Alta dos anos 39/40, os vizinhos de fundo do terrenos onde moravam,  era uma família de "Russos"...
Na verdade eram Judeus fugidos dos pogrons da Europa Central, que chegavam com passaporte Russo, ou sabe-se lá qual passaporte que confundiam com o russo..
Papai recorda que a esposa do casal passava para ele tomatinhos, pela cerca... e que eram saborosos..
Ele já não tinha mais a visão desde os dois anos..
A família era conhecida como "Os Mostardeiros".... Motivo??? Desconhecido...
Parece que se chamavam Schustack... ao menos era como ele ouvia, e hoje se lembra.
Haviam também os Knijnick, que tinham uma loja de roupas.. Sr Leon Knijinick.. Também Judeus "Russos"...
Ele lembra dos falares... e imita em um som de ídiche-gauchês a fala de  uma das senhoras, sobre o nome da filha: "Ela se chama Rachel, mas nós a chamamos de Rochella"...

Eu me lembrei que na Curitiba de 1969, esquina da Rua Estados Unidos com a Erasto Gaertner, havia  uma casa de madeira azul.. com uma imensa ( para mim era ) chaminé... No alto havia um leme, que virava ao sabor do vento... Algo comum naquela época, da Curitiba dos fogões à lenha, da polenta "brostolada", ou "brostolata"... das chaleiras de ferro...
A mais antiga imagem que me lembro é esta, vista da janela de um Renault dirigido por mamãe...
Para mim, nos meus 4 anos de idade, aquele leme se chamava "putamerda"... Motivo??? Desconhecido...
A esquina está lá... sempre passo por ela, no Bacacheri...a casa, ao lado do posto de gasolina, já foi engolida pelo tempo...
Era de uma senhora bem velhinha, chamada Angelina... Benzedeira... Que segundo Papai, muito me benzeu..
Baterei a foto, do ângulo que me lembro..

Quem lembra hoje da D. Angelina, a benzedeira??
Apenas lembranças.. fragmentos.. micro histórias... Que para ti pode nada significar... mas para nós...
Cerveja concluída com sucesso...

sábado, 2 de julho de 2011

Das histórias contadas em torno da mesa...

Almoço de Sábado, Polenta ao molho de bacalhau, vinho tinto...
Meu almoço para os 70 anos de mamãe...
Nada melhor que começar a falar de comida à mesa... que leva a outras e outras e outras histórias...
Creio que começou com a  discussão ancestral em torno de se guardar os restos da comida...
Discussão pertinente apenas entre os descendentes dos sofridos... Dos fugidos e refugiados....
Veio à mesa o fato do Vecchio Guido gostar de pão velho.... e a explicação, vinda de um papo dele e mamãe, creio que há mais de 30 anos...
Ele nasceu no Abruzzo, no início do século passado... 1908.. A infância é passada em uma Itália da Primeira Guerra, e apesar dela estar ao lado vencedor na época, na miséria que se seguiu e fermentou a outra de 1939...
A Mãe, minha bisavó Sofia Peruzzi D'Angelo, fazia o pão em um dia, mas só servia no outro... Explicação: Pão novo era consumido rápido... no dia... Já o pão duro, ou servido no dia seguinte, rendia e alimentava a "famiglia" por mais tempo...

Lembrei também de meu querido Sr Rosário, contando que o irmão não tolerava tomate, mas acabou catando cascas de tomates nas latas de lixo do campo de concentração... "Era difícil, Signore Guidinho", como ele me chamava!!

Ambos já seguem a sansara, à minha frente....

Gino Becchi: La Strada del Bosco: http://www.youtube.com/watch?v=XNikKfwndIQ Que "Il Vecchio" cantava na cadeira de balaço...

sábado, 25 de junho de 2011

Do controle do pensamento II

O Dhammapada é uma das sutra budistas, também conhecida entre nós como "O Caminho do Dharma".
Este é um texto extraído dele.
O Dhammapada faz parte dos cânones Teravada, ou "Ensino dos Sábios". Uma das linhas budistas.
Creio que resume tudo!


Somos o que pensamos.
Tudo o que somos surge com nossos pensamentos.
Com nossos pensamentos fazemos o mundo.
Se falares ou agires com a mente impura os problemas irão atrás de ti.
Assim como a roda que segue o boi que puxa a carroça.
Somos o que pensamos.
Tudo o que somos surge com nossos pensamentos.
Com nossos pensamentos fazemos o mundo.
Se falares ou agires com a mente pura a felicidade te seguirá,
como a tua sombra, inabalável.
Como pode uma mente perturbada compreender o caminho?
O teu pior inimigo não poderá fazer mal tanto quanto podem fazer os teus próprios pensamentos, sem controle.
Mas uma vez tendo aprendido isso, ninguém poderá te auxiliar tanto, nem mesmo o teu pai ou tua mãe.
Sakyamuni, no Dhammapada

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Do controle do pensamento


Um grande mestre contou certa vez uma história.

Um homem muito rico havia comprado um Cadilac do ano. O carro era espetacular, vermelho, com todos os itens disponíveis.... Até os inimagináveis.
Saiu para “tirar onda”, e de tão gostoso era de dirigir, acabou passando o tempo e se enfiando em uma pequena e poeirenta estradinha...
Após alguns quilômetros ouve um estouro. 
Pára,  vai ver o ocorrido e se depara com o pneu estraçalhado...
Lamenta não ter uma forma automática de trocá-lo, se resigna e vai ao porta-malas buscar os apetrechos para iniciar o trabalho de troca.
Abre o imenso porta-malas, encontra de tudo, menos o macaco....
Quase em desespero, olha ao redor e não vê um carro passando, e prevê que ficará ali um bom tempo.
Olha novamente em torno e se depara com uma placa que diz:
“ Aluga-se Macaco, 2 Km à frente”
A solução lhe aparece aos olhos, tranca o carro e sai, senão feliz, ao menos reconfortado rumo ao local que lhe alugará a solução de seus problemas.
Mas 2 quilômetros são 2000 metros, o que significa muito tempo para andar e pensar.
“Quanto me custará o aluguel?? Acho que uns R$10,00!”
E a cabeça trabalha:
“É... R$ 10,00 eu pago...”
“E se me cobrar R$20,00??? Bom, para um Cadilac de mais de R$200.000,00... tá bom...”
“Não!!! Não vai me cobrar só isto cá neste fim de mundo... me cobrará pelo menos R$ 50,00”

E a estrada segue, e os pensamentos continuam a florescer.
Chega finalmente a uma casinha, após uma curva, e bate à porta.
Atende um velhinho de bengala, mal e mal se equilibrando.
Ele salta e agarra o velhinho pelo pescoço e grita:
“Seu miserável!!!! Jamais pagarei R$ 1000,00!!”

O Sensei, Shonin, Mestre ou “whatever” que contava/conta esta história chama-se  José de Vasconcelos, é um comediante que fazia imenso sucesso na minha infância. Hoje com 85 anos, segue dono de um humor inteligente.
O outro Sensei, que sempre me lembrava desta história é meu Pai.... Também sábio, e “sabedor de muitas sapiências”... Sempre que eu começava a reclamar, me falava:

“Olha a história do macaco!!!”

Esta piada contém dentro dela a fonte do sofrimento, descoberta por Sakyamuni.
A geração de pensamentos negativos é constante, e será sempre um jorro incontrolável, a menos que você o controle.
Como citado no post anterior um dos passos fundamentais do Nobre Caminho Óctuplo é o Pensamento Reto (ou Correto), e a forma de se eliminá-lo é a meditação.
Pode ser  pela repetição de um mantra, em intenção do bem de outrem, ou na mentalização junto da respiração de pensamentos positivos.
Como escreveu o Giulio Cesare Giacobe, traduzindo de forma simples o que é simples:
" Ao se iniciar o pensamento negativo, o controlamos gerando bons pensamentos".
Com isto paramos de sofrer, temos uma idéia mais clara da realidade, nos atemos à realidade que é o agora, e evitamos pegar alguém pelo pescoço somente porque achamos que o macaco vai custar muito!
Você é o que são seus pensamentos!
Seu Universo é criado pelos seus pensamentos!
Sua vida é guiada pelos seus pensamentos!
Os pensamentos são seus, mas você não é o que são “seus pensamentos”!
O demônios só existem se você os criar!

sábado, 11 de junho de 2011

Da Paz interior



Da Paz interior

Tem algum tempo que buscava um caminho novo para tratar das “coisas da vida”...
Sempre me interessei pelo Budismo, pois o conheci pequeno ainda, junto à colônia Japonesa, na Curitiba dos anos 70....
Ouvi pela primeira vez o “Namu Myoho Rengue Kyo “ numa casa nas imediações da Base Aérea de Curitiba... Lá se concentrava boa parte da Colônia Japonesa da cidade...
É... Curitiba tinha Colônias na época...
Interessei-me pelo pessoal Zen, mas nunca fui muito mais que umas poucas leituras... Veio a adolescência, o Colégio Militar, a mochila, o Marumbi , os acampamentos e as escaladas falaram mais alto...
Num determinado sábado da minha vida, longe de onde gostaria de estar, longe de quem com que eu gostaria de estar,  lembrei de que “o desejo trazia o sofrimento”... Voltei a estudar o Budismo...
Obviamente que ao me deparar com o Budismo devocional reagi negativamente..
Sou por mais Cartesiano para aceitar que a devoção me levará a algo mais que uma bela enrascada patrocinada por um cara de batina ou “vestes estranhas”...
O Buda que me lembrava era “ateu”... O ateísmo Búdico sempre me atraiu, não por Buda ter negado a existência de Deus, mas por Buda não ter se preocupado com a existência ou não...
Mergulhei em alguns livros que listarei abaixo, mas encontrei algo muito racional num livro de título jocoso... Aliás, uma das características dos budistas é o bom humor...
O livro não apresenta o budismo sob o viés devocional, mas sim sob o viés psicológico. Recomendo a leitura de ponta a ponta, e reconheço que dei de presente a um amigo que estava em estado de “inferno”..
É baratinho, pesquisa na net, vais gostar...
Como Virar Buda em Cinco Semanas - O Caminho Mais Curto para a Serenidade
Giacobbe, Giulio Cesare
Segue uma breve explanação sobre o Budismo, que adotei como filosofia de vida por alguns motivos, a saber:
1.       Deus não está na conta.... Nem o Diabo...
2.       Define o problema “sofrimento”, seja ele de qual motivo for!
3.       Apresenta uma solução, não devocional!
4.       Não te cobra dízimo!
5.       Não te exorciza de demônios inexistentes! Aliás, te mostra que o único demônio é você mesmo!
6.       Não te obriga a seguir ninguém para “chegar lá”! Aliás, diz que tens de chegar por ti mesmo.
7.       Coloca a responsabilidade de teus atos em tuas mãos, não na  “maldita da cachaça” ou “no demônio que colocou a arma na tua mão”!

O Ateísmo Búdico.

Buda não nega, nem defende a existência de um Deus.
Buda era um cara pragmático, tinha um problema e queria resolvê-lo.... Resolveu, e decidiu ensinar os demais.
Para entender este ateísmo Búdico, há uma história muito interessante:
Imagine uma pessoa que tenha sido ferida por uma flecha, ela precisa de cuidados imediatos.
Mas imagine que antes de deixar o médico tocar na ferida ele queira saber quem atirou a flecha, de que madeira era o arco, qual era a ponta da flecha, qual era o estilo do arqueiro, e por aí adiante.
O infeliz morreria em meios a discursos acadêmicos.
Buda falou (ou aceitemos que isto foi falado pelo Buda histórico)
“Eu ensino unicamente aquilo que serve para atingir o Caminho. Não ensino aquilo que é inútil. Para além do fato de o universo ser finito ou infinito, temporário ou eterno, há uma verdade que deve ser aceita: A realidade do sofrimento. O Sofrimento provém de causas que podem ser compreendidas e eliminadas. O que ensino é útil à obtenção do distanciamento, da equanimidade, da paz e da libertação. Porém, não falo daquilo que não é útil para alcançar o caminho. " 
Esta explicação aparece em várias Suttas (sermões)

O Cara

Antes de tudo, Buda não é uma pessoa, e sim um estado, ao qual poderás chegar, se assim o quiseres.  Basta seguir o Nobre Caminho Óctuplo.
Aqui temos de tomar muito cuidado, o primeiro Buda  foi um homem, historicamente existiu. Nasce como Sidarta Gualtama posteriormente conhecido por Shakyamuni ("sábio dos Shakyas")
Mas os escritos sobre sua vida têm muita mistificação. De seu nascimento fala-se que a mãe recebeu a visita em sonho de um Elefante de seis presas (Existe um "arcanjo Gabriel"  para cada cultura).
Este a golpeou e após 10 meses ele nasceu, gestação de Elefante, obviamente....
A mãe morre oito dias depois do parto e sua ama de leite será sua tia.
Seu pai (o humano, não o paquiderme- o rei Suddhodana, líder do clã Shakya,) descobre cedo que ele é um predestinado a mudar o mundo, e o encerra então em seu palácio para que ele não abandonasse o reino.  O faz casar com sua prima, e com ela Sidarta tem um filho.
A angustia de Sidarta se inicia um dia que tem contato com a pobreza, com a doença, a velhice e a morte.
Esta angústia era tão grande que ele abandona o palácio (forma educada para dizer que abandona mulher e filho) e sai para buscar a solução.
Viverá como asceta e descobrirá que não é a solução, a meditação lhe trás a paz, mas esta só existe durante a meditação. Mas num dado momento Sidarta se ilumina.


A Iluminação:


Sidarta chega aos seguintes entendimentos:
  • ·         Nada é permanente, tudo está em constante mutação, Sidarta foi o primeiro Existencialista da história.
  • ·         Tudo está interligado.


Da Impermanência:

Se nada é permanente, nem eu sou, não existe um “EU”, um “Ego”. Não ao menos imutável.
Se houvesse a permanência, um grão de arroz não se transformaria num planta, ou uma criança em um adulto.
A impermanência é o que mais me seduziu quando das minhas leituras dos existencialistas, e a encontrei no Budismo.
Se um homem toma banho duas vezes num rio, na segunda não será mais o mesmo homem, nem o rio mais o mesmo rio.
Não sou mais o mesmo homem que era antes de Nathália nascer, ou depois de minhas vitórias e minhas derrotas. 
Não mais o mesmo homem desde que conheci Eliane, nem ela mais a mesma mulher. Mudamos!
Portanto se não existe um “Eu” permanente,  estou me iludindo ao me apegar a este “Eu”, e a ilusão trará o sofrimento. Se me apegar àquela imagem inicial de minha amada, estarei me encaminhando para o sofrimento, pois ela mudará. 
O desapego do “Eu”, que tantos não aceitam, na verdade é aceito com outras palavras pelas mesmas pessoas, senão vejamos:
Amar é deixar livre.
É uma frase comum, que já foi cantada “em prosa e verso”... eu conheço até uma música da Suzy Quatro com este nome.
Podemos entender esta frase como um desapego. O desapego não nega o amor, não preciso deixar de amar minha esposa por conta do desapego. O desapego chega até ser uma questão de respeito por ela, de aceitar a sua mutação, de não impedir a sua evolução.
Creio que não é que não exista um EU, mas sim há um EU mutável.
Neste momento alguém gritaria: TOCA RAULLLLLL!!!
Segundo reza a lenda, Raul era leitor de Schopenhauer, que foi um dos primeiros “tradutores” do Budismo para o ocidente.

Da interligação:

Sidarta, agora já um Buda (ou em estado de Buda), vê na folha de uma árvore todo o Universo.
A folha só existe pois houveram as explosões de supernovas, que espalharam os compostos pesados amalgamados nos corações das estrelas...  Sidarta talvez tenha sido o primeiro astrofísico... J.
Carl Sagan nos deixou uma frase muito linda a este respeito:
Você é feito de poeira das estrelas.
No livro de Giulio Giacobbe ele cita (sempre jocosamente) :  
“Quantas vezes você já ouviu que é importante para o Universo??”
Pois, se você não existisse, não haveria ESTE Universo... seria um outro. Você faz parte deste Universo. Você existe, pois existiram seus Pais.
Os cavalos existem, pois houve uma evolução e milhares de outros seres (impermanentes, viu) que deram origem aos cavalos.
Um dos símbolos do Budismo é a Flor de Lotus, pois dizem que ela carrega a causa (a semente) e o efeito (a flor) ao mesmo tempo... Botânica não é o meu forte, e nunca ví uma flor de Lótus pessoalmente, mas creio que o simbolismo esteja explicado.

A Impermanência leva a uma conclusão temporal:
O passado já não existe, o futuro ainda não existe o que resta é o presente!
Você verá que um dos oito preceitos é a compreensão da Realidade, e esta é aquilo que te cerca neste momento.
Para mim, sentado à mesa da copa de minha mãe, a realidade é este computador, a música que estou ouvindo e a cuia fumegante de chimarrão.
Nem Nova York, nem Joinville, são reais para mim.
A Realidade é aqui e agora. Uma das coisas que se faz na meditação é a absorção da Realidade.
A atenção aos atos.
Em uma das sutras, Sakyamuni fala do ato de comer uma tangerina conscientemente.  Isto significa aproveitar sua doçura, sua fragrância, sua textura. 
A sua Realidade é neste momento a tangerina, se você não prestar atenção nela, e sim ficar pensando no enriquecimento do Palocci, você não curtiu o presente.
Você pode tentar fazer isto com uma taça de vinho....
A atenção aos atos é importante por outro conceito, o Carma (Karma se preferires).
Carma significa ação, tão pura e simplesmente. São as ações que fazemos agora que determina nosso futuro.
Numa frase:
“Se queres saber o motivo do que estás vivendo agora, olha teu passado, se queres saber a forma que vais viver no futuro, olha teu presente. “
A atenção à realidade e aos atos determinará o carma em questão.
Eu estou vivendo hoje entre Rio e Curitiba por conta de decisões que tomei no passado recente. E fui eu que tomei a decisão, não foi o diabo que me colocou em rota de choque com o chefe, nem o chefe que criou a situação.




As Quatro Nobres Verdades

1.       A Existência do Sofrimento.
a.        Sofrimento existe e é criado por nós.
2.       A causa do sofrimento
a.       A ignorância da impermanência.
b.      O apego a coisas impermanentes achando que são permanentes
3.       A extinção do sofrimento
a.       É possível extinguir o sofrimento e chegar ao estado de Buda.
b.      Só você pode fazê-lo, por teus esforços.
4.       O caminho para a extinção do sofrimento.
a.       Seguir o Nobre Caminho Octuplo

O Sofrimento é sistemático e contínuo, entende-se ser um sofrimento neurótico (importante ver a diferença de neurose para psicose, pois vou te chamar de maluco daqui a pouco).
Desde que o ser humano deu início à evolução psíquica, ou seja, a pensar,  ele transformou o pensamento em sua principal atividade perceptiva.
O seu “Eu”, ou imagem que tem de si, superou o seu corpo e se projeta nas suas posses, possibilidades, vínculos afetivos (outros seres), papeis sociais.
De acordo com a psicologia Budista, esta é a raiz da neurose, portanto do sofrimento.
É uma neurose, pois constitui um processo de afastamento da Realidade, ou seja, da coincidência natural do “Eu” com o corpo. Você passou a ser seus pensamentos.
O controle deles e a atenção à Realidade, que é onde você está, é um dos oito preceitos do Nobre Caminho Óctuplo.
O sofrimento se deve a um aumento do estado de vulnerabilidade do Eu, e aumenta com a ampliação do número de objetos dos quais se identifica.
O que nos torna neuróticos não é a vida frenética, mas sim a postura mental perante ela. “A felicidade depende do sucesso”. Isto provoca o stress, o exato contrário da serenidade. E atrapalha o sucesso.
A felicidade vem exatamente da serenidade. O Estado de Buda (ou budeidade) nos possibilita alcançar a serenidade, sem necessariamente renunciar ao sucesso
O Estado de Budeidade é simplesmente o estado natural de não neurose. Estranhamente achamos que este estado neurótico é o normal. Na realidade somos todos anormais
Buda colocou que o estado de Budeidade é possível de se alcançar por todos, justo por não ser um estado sobre-humano, mas simplesmente um estado natural.
Como obter a extinção do sofrimento?  Seguir o Nobre caminho Óctuplo.

O Nobre Caminho Óctuplo:

Ele na realidade pode ser reduzido a cinco preceitos, mas vamos aos oito:

Conhecimento Reto:

Consciência da impermanência, da mutabilidade e da interdependência das coisas.
E em consequência, o desapego.
A Iluminação de Sakyamuni.

Pensamento Reto

Eliminação do pensamento negativo involuntário e a produção do pensamento positivo voluntário.
Note que aqui entra empatia, o Amor Universal.
Encontrei no Zen um tipo de meditação que se chama “Tonglen”, que busca justamente o desenvolvimento da empatia.
Tenho praticado ela para com as pessoas que “me incomodam”. Passo a não mais me incomodar, e a não mais sofrer com aquilo.

Palavra Reta

Preceito moral, ligado aos cinco preceitos básicos :
1.       Não matar;
2.       Não roubar;
3.       Não cometer violência;
4.       Falar de acordo com a verdade;
5.       Abster-se de usar substâncias que obscureçam a mente.

Ação Reta

Preceito moral, ligado aos cinco preceitos acima.

Meios retos de subsistência.

Preceito moral, ligado aos cinco preceitos acima.
Vale um comentário aqui: Todos tem o Buda dentro de si, mesmo aquele mais terrível facínora.
Mas dedicar-se a uma profissão que produz sofrimento aos outros sempre trará sofrimento pois ela acaba gerando um sentimento  de culpa.
Aqui novamente o pragmatismo de Buda, eliminar a culpa elimina o sofrimento.
 Obviamente este sentimento de culpa depende do ambiente que o indivíduo viva, mas Sakyamuni adotou as regras morais que são de modo geral pertencentes a todas as culturas humanas.

Esforço Reto

Vontade (ou força de vontade)  para a Concentração Reta

Presença Mental Reta

Atenção à realidade e a interação com ela.

Concentração Reta

Observação desprendida da mente.
É a libertação dos pensamentos involuntários.
É o objetivo final, é atingir o estado de Budeidade.

Provavelmente voltarei a escrever sobre isto, mas creio que não devas esperar. Compra o livrinho e leia.

Links:

Alguns links que estão nos meus favoritos:

Livros

Como virar Buda em cinco semanas 
Giulio Cesare Giacobbe - 144 páginas
Buda: o Mito e a Realidade 
Herodoto Barbeiro - 120 páginas - Madras 
Bruno Pacheco - 167 páginas
A Ética Budista e o Espírito Econômico do Japão 
Ricardo Mário Gonçalves - 165 páginas - Elevação 
O Budismo 
Bernard Faure - 137 páginas - Instituto Piaget 
O Arqueiro Zen e a Arte de Viver 
Kenneth Kushner - 71 páginas - Pensamento